domingo, 28 de agosto de 2011

Estudo sobre Cantos da Capoeira - II

Vamos começar com "O Canto", capítulo VIII da obra de Waldeloir Rego. Uma prudente advertência é termos consciência que esta obra é datada, 1968. Estamos há 43 anos da sua publicação, apesar de sua enorme importância para os estudos sobre a capoeira esse tempo deve ser levada em conta. A obra pode ser entendida como constituidora de uma memória sobre o que entendemos ser capoeira. 
Sua abordagem sobre cantos e cantigas faz uma advertência: "é por demais perigoso se tentar distinguir cantiga de capoeira antiga da atual e, de um modo geral, cantiga de capoeira propriamente dita e cantiga de procedência outra, cantada no jogo de capoeira". A confusão passaria em considerar as cantigas antigas pelas modernas e vice-versa, e por considerar cantigas de capoeira, as que não são. Talvez, hoje em dia, seja mais fácil determinar as cantigas cantadas nas rodas do tempo do autor e que ainda são, das músicas escritas atualmente, já que muitas foram gravadas em CD´s e atendem mais ao mercado criado pela proliferação de grupos e escolas de capoeira pelo mundo.
Feita a advertência, o autor caracteriza os cantos e cantigas da capoeira:

"De um ponto de vista amplo, a cantiga de capoeira tanto pode ser o enaltecimento de um capoeirista que se torno herói pelas bravuras que fiz quando em vida, como pode narrar fatos da vida quotidiana, usos, costumes, episódios históricos, a vida e a sociedade na época da colonização, o negro livre e o escravo na senzala, na praça e na comunidade social, sua atuação na religião, no folclore e na tradição. Louvam-se os mestres de capoeira e evocam-se as terras de África da onde procederam. Fenômeno importante a se observar em boa parte das cantigas de capoeira é o diálogo. Não é o diálogo normal entre duas pessoas presentes, mas o entre uma pessoa humana presente e outra pessoa ou coisa ausente, onde a indicações são feitas e respondidas por uma só pessoa". (Rego, 89-90)

O que parece mais interessante nessa caracterização é o fenômeno do diálogo. O encontramos também no jogo, na expressão dos movimentos de defesa e ataque sincronizados durante a luta, em que o padece aquele que não responder a altura o movimento de seu oponente. Um ataque, uma pergunta que requer uma resposta de seu adversário. 
Encerra o capitulo com a transcrição de várias cantigas que colheu de mestres e de seus alunos. Aqui vale lembrar que a obra é datada, ou seja, que a pesquisa feita por Valdeloir também é datado. Além da vasta bibliografia usada pelo autor, também é relevante o contato que teve com os capoeiristas da época.  O que leva a questão: Quem eram esses capoeiras? Pergunta importante que pode ajudar não a distinguir as cantigas antigas das modernas, mas estas das nossas contemporâneas.
Para encerrar esta postagem selecionei algumas cantigas colhidas por Valdeloir:

Eu vô dizer a meu sinhô
Qui a mantêga derramô
A mantêga não e minha
A mantêga é do sinhô
Eu vô dizê a meu sinhô
Qui a mantêga derramô
A mantêga não é minha
A mantêga é de yayá.

Doralice
Não me pegue
0 não, não pegue
Não me pegue
No meu coração
O Doralice
Não , não me pegue
Não me pegue não.

Esta cobra te morde
Sinhô São Bento
Oi o bote da cobra
Sinhô São Bento
Oi a cobra mordeu
Sinhô São Bento
O veneno da cobra
Sinhô São Bento
Oi a casca da cobra
Sinhô São Bento
O que cobra danada
Sinhô São Bento
O que cobra marvada
Sinhô São Bento
Buraco velho
Sinhô São Bento
Tem cobra dentro
Sinhô São Bento
Oi o pulo da cobra
Sinhô São Bento
E cumpade.



Minino quem foi seu meste
Meu meste foi Salomão
Andava de pé pra cima
Cum a cabeça no chão
Fui dicipo qui aprende
Qui in meste eu dei lição
O segredo de São Cosme
Quem sabe é São Damião


Stava in casa
Sem pensá, sem maginá
Salomão mandô chamá
Pra ajudá a vencê
Esta batalha liberá
Eu que nunca viajei
Nem pretendo viaja
Dê meu nome eu vô
Pro sorteio militá
Quem não pode não intima
Deixe quem pode intimá
Quem não pode com mandinga
Não carrega patuá.
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