domingo, 4 de setembro de 2011

Estudo sobre Cantos da Capoeira - IV

Voltemos a Waldeloir Rego, mas agora vamos estudar o capítulo IX. O autor classificou o estudo das cantigas de capoeira em quatro vias: linguística, folclórica, etnográfica e sócio-histórica. 

Não vamos nos deter aos estudos do autor relacionados a linguística, mas se estivéssemos aqui, somente pensando na composição de uma cantiga de capoeira (como anunciado no início da série Estudos sobre Canto da Capoeira) esta via nós dá algumas dicas, pois segundo a linguística, "as cantigas fornecem detalhes da linguagem corrente do Brasil, principalmente no campo fonético, sintático e semântico". Ou seja, para que nossa cantiga poça ser caracterizada como de capoeira temos que levar em conta os falares brasileiros. Vejamos um exemplo de fonética.oi publicado na obra:

            e=i
        O e pretônico em Portugal ou se conserva ou passa a i nasalando-se ou 
        não, como nas palavras insinô (ensinou), imbora (embora), sinhô 
        (senhor),inducação (educação), milhó (melhor), das cantigas de 
        números 2, 8, 23, 25,42, 66.

Vamos então a via folclórica. Valdeloir afirma que temas folclóricos são muito presentes nas cantigas. Para apreciação do leitor procurou juntar as cantigas seguindo os seguintes agrupamentos: Cantigas geográficas, Cantigas agiológicas, Cantigas de louvação, Cantigas de sotaque e desafio, Cantigas de roda e Cantigas de peditório. Entre aquelas cantigas que não se enquadravam nas opções acima, para Rego eram as que falam da capoeira, de seus instrumentos e ou aos jogos. Outras ainda, falam da religiosidade. Mas, vamos aos agrupamentos: 

Cantigas de escárnio e de mal dizer

"As cantigas de escárnio e de mal dizer, correntes nos cantos de capoeira, povoam os cancioneiros medievais portugueses, infelizmente trancafiadas, em parte, a sete chaves nos arquivos, sob o pretexto de obscenas" (Rego, 236)

Na minha casa veio um home
Da espece dos urubus
Tinha camisa de sola
Paletó de couro cru
Faca de ponta no cinto
Rabo cumprido no cu
Os beiço grosso e virado
Como sola de chinelo
Um zóio bem encarnado
Outro bastante amarelo.

Cantigas de berço

"No Brasil, as cantigas de berço, regaço e acalentar são inúmeras não só as trazidas pelos portugueses, como as modificadas pela bôca africana. Lembro-me bem, quando criança, ouvir várias delas como:" (Rego, 240)


Sussu cambê
Bê ê, bê ê, bê
Vem pegá esse minino
Bê ê, bê ê, bê
Qui não qué durmí
Bê ê, bê ê, bê
E só qué chorá
Bê ê, bê ê, bê.


Cantigas de devoção

Existentes na capoeira, as cantigas de devoção são muito comum em Portugal, geralmente invocam São Cosme e Sâo Damião (santos populares na Bahia sincretizados com o deus  gêgê-nagô Ibeji).

"Nas residências familiares, há o célebre caruru de São Cosme, que em algumas casas se dá um tom meio ritualístico, dentro do espírito africano. Assim, antes de tirar a comida para colocar no alguidar dos santos, tira-se um pouco de cada coisa, embrulha-se em folhas de bananeira e se joga numa encruzilhada para Exu. Após então é que se tira a do santo e a dos sete meninos, que é colocada numa bacia de alumínio no chão, vindo os referidos meninos, levantando e arriando três vezes com o seguinte canto:–

Vamos levantá.
O Cruzêro de Jesus.
Aê, aê.
Aos pés da Santa Cruz..

Algumas cantigas são invocativas da proteção de São Bento contra mordedura de cobra. As invocações a São Bento são de caráter preventivo.


Esta cobra te morde
Sinhô São Bento
Oi o bote da cobra
Sinhô São Bento
Oi a cobra mordeu
Sinhô São Bento
O veneno da cobra
Sinhô São Bento
Oi a casca da cobra
Sinhô São Bento
O que cobra danada
Sinhô São Bento
O que cobra marvada
Sinhô São Bento
Buraco velho
Sinhô São Bento
Tem cobra dentro
Sinhô São Bento
Oi o pulo da cobra
Sinhô São Bento
E cumpade.

Cantigas agiologicas

Cantigas agiológicas são as que se referem a santos católicos ou personagens bíblicas.

Riachão stava cantando
De Coité a Pimentêra
Quando apareceu um nêgo
Dizendo desta manêra
Você disse que ama a Deus
O teu Deus te enganô
Salomão ele fez rês
São Pedro sempre soldado
Fez um rico outro pobre
Outro cego outro alejado
Salomão ele fez rês
porque ele merecia
São Pedro um simples soldado
Porque a ele lhe cabia
Fez um rico outro pobre
Visso tudo Deus sabia.

Cantigas geograficas

"Cantigas focalizando vilas, cidades, estados e países estão não só nas cantigas de capoeira, como em cantos outros do folclore. Anísio Melhor coletou as seguintes quadras, em que falam de várias localidades da Bahia e do Brasil:"

Caixa-Pregos tem baleia,
S. Amaro tem xangó
Jaguaripe petitinga,
Nazaré tem mocotó.
No Mundo Novo tem bota,
No Camisão tem jabá,
Capote na Fortaleza
Relógio no Pindobá.
Piauí pra criá boi,
Pajeú pra valentão
Mata do Sul pra cacau
S. Estevam pra ladrão.
Nova Lage pra canário,
Amargosa pra café,
Pra sabiá Agua-Branca
S. Felipe pra mui
Cantigas de Louvação

São cantigas louvando as habilidades e bravuras dos famosos capoeiristas.
Besôro ante de morrê
Abriu bôca e falô
Meu filho não apanhe
Qui seu pai nunca apanhô
Na roda da capoêra
Foi um grande professô.

Cantigas de sotaque e de desafio

"O sotaque e o desafio é muito do negro, não só entre cantadores, capoeiristas e mesmo entre o pessoal do candomblé, que o faz em pleno ritual, cantando para este ou aquele orixá. Nessa questão de sotaque e desafio o negro é a grande vítima, sendo ridicularizado ao máximo, sobretudo quando o compara ao macaco ou ao anum, pássaro preto com um bico grande e grosso, daí se dizer que o negro tem bico de anum, isto é, tem os labios grossos à semelhança do pássaro:"

O anu é pássaro prêto,
Pássaro de bico rombudo,
Foi praga que Deus deixou
Todo negro ser beiçudo

Cantigas de roda

"Das cantigas de roda infantis do nosso folclore, só chegou ao meu conhecimento uma, (...) que é cantada em todo o Brasil por crianças, capoeiristas e cantores profissionais de rádio e televisão."

Panhe a laranja no chão tico-tico
Pois tua saia é de renda de bico
Panhe a laranja no chão tico-tico
Se meu amô fô imbora eu não fico
Panhe a laranja no chão tico-tico
Na uma, nas duas, nas três eu não fico.

Cantigas de peditório

As cantigas de peditório constituem uma característica dos violeiros cegos.

Abordemos agora as outras duas vias apontadas por Rego: Etnográfica e sócio-Histórico: A abordagem Etnográfica, narra através do canto, toda uma epopeia do passado escravo. Procura mostrar a sua condição de escravo; a habitação conhecida por senzala e o tratamento sofrido  durante o período patriarcal como algo rigoroso e violento. 

Riachão tava cantando
Na cidade de Açu
Quando apareceu um nêgo
Como a espece de ôrubú
Tinha casaca de sola
Tinha calça de couro cru
Beiços grossos redrobado
Da grossura de um chinelo
Tinha o ôlho incravado
Outro ôlho era amarelo
Convidô Riachão
Pra cantá o martelo
Riachão arrespondeu
Não canto cum nêgo desconhecido
Ele pode sê um escravo
Ande por aqui fugido
Eu sô livre como um vento
Tenho minha linguagem nobre
Naci dentro da pobreza
Não naci na raça pobre
Que idade tem você
Que conheceu meu avô
Você tá parecendo
Que é mais môço do que eu

Por último, a abordagem sócio-Histórico, "o acontecimento de maior relevância na vida funcional do capoeirista foi a guerra do Paraguai. (...) A guerra se deu na época em que os capoeiristas estavam em pleno auge de suas atividades, em verdadeiro conflito com a força pública e a sociedade".

Eu tava na minha casa
Sem pensá, sem maginá
Mandaro me chamá
Pra ajudá a vencê
A guerra no Paraguai.

Para todo e qualquer capoeirista as informações e reflexões contidas na obra de Valdeloir Rego são de grande valia, não somente como ajuda na composição de novas cantigas de capoeira, mas pela necessidade de se ter consciência daquilo que está cantando. Todo capoeirista deve saber o que está cantando. (Como já disse mestre Jogo de Dentro)

Abraço.


obs: Os trechos entre " " foram extraídos da obra aqui estudada. 



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