quarta-feira, 14 de março de 2012

Estudos sobre Cantos da Capoeira - IV

Os objetivos (“estudos sobre capoeira angola”) traçados quando da concepção deste blog em abril de 2011 continuam a impulsioná-lo. Nesse sentido, se faz pertinente abordar mais uma vez a obra de Waldeloir Rego, Capoeira Angola, ensaio sócio-etnográfico de 1968. Agora, para engrossar as pesquisas sobre Cantos e Cantigas, visitemos o capítulo IX – Comentários às Cantigas, da dita obra.

Para o autor, as cantigas possibilitam a compreensão de aspectos sobre a vida brasileira e suas diversas manifestações. Reforço afirmando que por esse material encontramos indícios que ajudam contar histórias do cotidiano, das rinchas, dos acertos, dos lugares e pessoas. Mas, ainda com o autor, esses “valiosos elementos” podem ser examinados sob o ponto de vista lingüístico, folclórico, etnográfico e  sócio-histórico. E, desta forma, o restante do capítulo segue essa divisão e limites.

Linguìsticamente falando, as cantigas fornecem detalhes da linguagem corrente do Brasil, principalmente no campo fonético, sintático e semântico.” (127)

Assim, no campo fonético teríamos uma amostra tanto da pronúncia geral como a do Rio de Janeiro, como exemplo por ter sido capital da coroa portuguesa na América,  quanto de pronúncias locais (regionalismos como os encontrados no nordeste). Seguido a isso, Waldeloir apresenta uma série de características fonéticas encontradas nas letras das cantigas e procura elucidar seu significado e origem quando possível.

Veja os exemplos:


Esclarecidas tais questões fonéticas, Waldeloir ricamente elenca uma grande série de léxicos. Ou melhor, palavras encontradas nas cantigas que sofreram a ação do uso mais popular e assim, sofreram mudanças mencionadas na fonética são devidamente apresentadas em seu significados, localidades, usos e origens. É uma lista longa, muito útil para aqueles que pretendem compreender o que as cantigas de capoeira querem ensinar. 
Veja alguns exemplos:


Quanto ao Aspecto Folclórico, que entenderemos aqui como culturas de um povo, Waldeloir afirma que esses aspectos são marcantes e freqüentemente presentes nas canções, no qual reuniu em grupos. Algumas cantigas que não se conseguiu estabelecer elos, para formar um grupo, então as reuniu como uma categoria a parte. As demais cantigas, Waldeloir separou em, por exemplo, Cantigas geográficas, Cantigas agiológicas (aspectos de santos católicos ou bíblicos) Cantigas de louvação, Cantigas de sotaque e desafio, Cantigas de roda ou Cantigas de peditório (pedido de esmolas).


Vejamos algumas. De raízes medievais, as Cantigas de Escárnio e Mal dizer são encontradas entre cantigas de capoeira. Elas se referem: à cor do negro como símbolo de malefício; desejo que outros contraiam alguma doença como a Praga da Galinha; ao comportamento das mulheres, a moral diante do marido ou de um ciúmes doentio; mal dizem sobre a masculinidade de alguém. As Cantigas de Berço, regaço e acalentar também são muito comuns fazendo menção ao universo infantil. Foram trazidas pelos portugueses durante a colonização e modificadas pela presença africana. As Cantigas de devoção fazem reverencias a santos como São Cosme ou Damião, ou ainda invocam proteção de São Bento (em caráter preventivo) contra cobras e animais venenosos. As cantigas agiológicas reúnem as cantigas que se referem a santos católicos e aspectos de suas vidas. É lembrado o personagem Bíblico Rei Salomão por sua lendária sabedoria, ou ainda, Nossa Senhora (Santa Maria) para que ela interviesse junto a Deus pelo capoeira. As cantigas Geográficas mencionam localidades (vilas, cidades, estados e países). As cantigas de louvação elogiam as habilidades e as bravuras de capoeiras como Paulo Barroquinha, Dois de ouro, Pedro Mineiro e o famoso Besouro Cordão de Ouro. As cantigas de sotaque e de desafio, segundo Waldeloir são próprias dos negros, que acabam também sendo a grande vítima da cantiga, pois o ridiculariza em comparações com animais. As cantigas de roda compõem nosso folclore e foram apropriadas pela capoeira. Encerrando, o autor apresenta Cantigas de peditório, lembra que essas cantigas para pedir esmolas são características de violeiros cegos.


Faço menção que os dois últimos aspectos vistos pelo autor Etnográfico e sócio-histórico podem ser vistos como únicos, pois as práticas das ciências envolvidas estão em constante debate e dividem limites teóricos. Aqui trataremos em separado, seguindo o roteiro do autor.

Desta forma, quando Waldeloir se remete a escrever sobre o Aspecto Etnográfico trabalha com a idéia de um estudo sobre a cultura de um povo, seus costumes, índole, raça, língua, religião,... Neste ponto, é relevante mencionar que me parece estar o autor inserido entre uma gama de intelectuais dos anos sessenta no Brasil, preocupados em desvendar uma identidade para o Brasil e para os brasileiro selecionou elementos para a sua constituição. Esse estudo etnográfico se preocupa em descrever a vivência (entenda como cultura) do brasileiro. Em suas palavras:

“O capoeirista de hoje narra durante o jogo da capoeira, através do canto, toda uma epopéia do passado de seus ancestrais. Nas cantigas de números 1 e 2 procura mostrar a sua condição de escravo e o conseqüente estado de inferioridade perante os demais. Luanda, cantada e recantada pelo negro, a ponto de Cascudo dizer que Não acredita que nenhuma cidade neste mundo esteja nas cantigas brasileiras como Luanda, é lembrada nos cantos de números 30 e 32, fixando, assim, um dos pontos de procedência do negro escravo. A terrível habitação conhecida por senzala, onde ficavam todos, amontoados feito animais, aparece na cantiga número 105. O tratamento que durante o período patriarcal era algo rigoroso, tratando as esposas aos seus maridos por senhor, e os filhos, senhor pai e senhora mãe a seus pais, o negro adoçou o tratamento do senhor todo-poderoso patriarca e sua respectiva esposa em sinhô e sinha, yoyó e yaya. Esse vestígio ainda existente no falar cotidiano do negro, está nas cantigas números 22, 23, 24, 25, 26, 29 e 137. Da alimentação, canta detalhes nas cantigas números 33, 50 e 115 quando se refere ao dendê, que tanto serve para condimentar a moqueca, invenção africana, como é utilizado nos ebóse outros rituais do culto afro-brasileiro.” (257)

Por fim, o Aspecto Sócio-histórico, que para o autor histórico é relativo a oficial, a governos e seus conflito, ou melhor, a uma história política. Indo nesta direção, elege como acontecimento de maior relevância para os capoeiras a Guerra do Paraguai (1864-1870). Ocorrido, segundo ele, num momento de auge da capoeira, “num verdadeiro conflito com a força pública e a sociedade” e que, apesar de inúmeras noticias, todas dormem na lenda por não se conhecer documentação concreta (lê-se aqui oficial) sobre a participação de capoeira naquela guerra.
Terminamos, assim, a leitura (estudo) de um trecho da obra de Waldeloir Rego sobre Cantos e Cantigas. Continuaremos nossos estudos em futuras postagens.

Abraço e, aguardamos seus comentários e os esperamos como seguidores.

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