sábado, 27 de abril de 2013

A Bahia de outrora (1916) - Manoel Quirino


Nesta postagem apresentamos um texto de Manoel Quirino publicado no ano de 1916, único intelectual de sua época que valorizou a contribuição africana à civilização brasileira, Foi fundamental no resgate e documentação das contribuições dos africanos e seus descendentes ao desenvolvimento do Brasil e preservou um considerável montante de informações sobre as artes, artistas e artesões da Bahia. 


O autor: Manoel Raimundo Quirino (1851-1923)

Na busca por conhecer aqueles que se dedicaram a estudar a Capoeira encontrei Manoel Quirino. Esse homem, baseado em biografias espalhadas pela internet, me aparentou ser alguém muito maior do que somente, alguém que estudou (ou falou sobre) a capoeira. O inicio de sua vida se assemelha a história de vida de muitos brasileiros desprovidos de poder aquisitivo, inclusive tendo vivido experiências que somente aqueles esquecidos pelo poder publico passam, mas que no entanto, teve (ou construiu) um destino diferente.
Afrodescendente, nasceu em Santo Amaro da Purificação (28 de julho de 1851) e veio a falecer aos 71 anos em Salvador (14 de fevereiro de 1923), em sua vida acumulou feitos e posturas que para aquela sociedade da vira do século XIX para o século XX eram tida não para ele, mas para uma sociedade branca e elitista. Foi um intelectual afro-descendente, aluno fundador do Liceu de Artes e Ofícios da Bahia e da Escola de Belas Artes, pintor, escritor, líder abolicionista e pioneiro nos registros antropológicos da cultura africana na Bahia.

Mas comecemos pela sua infância. A epidemia de cólera ocorrida 1855, em Santo Amaro, o tornou órfã e foi confiado aos cuidados de um tutor, o professor Manoel Correia Garcia, que o iniciou nas primeiras letras. Mais velho e o Brasil estando em conflito com o Paraguai serviu no exercito durante a guerra, a sua escolaridade lhe possibilitou ficar distante das linhas de combate atuando como escriba. Findada a guerra dedicou-se ao desenho e à pintura, estudando no Liceu de Artes e Ofícios e na Academia de Belas Artes, onde também trabalhou. Formou-se em Desenho Geométrico e passou a lecionar no Liceu e no Colégio de Órfãos de São Joaquim e produziu dois livros didáticos sobre desenho geométrico.
Atuou na política como abolicionista e fundou o Partido Operário e a Liga Operária Baiana, onde travou no meio intelectual debates contra as idéias preconceituosas da ciência de então, esposadas por Nina Rodrigues. Sua atuação foi tão notória que inspirou a criação do personagem Pedro Arcanjo, figura central do romance Tenda dos Milagres de Jorge Amado.

O texto: A Capoeira.

O texto de Manoel Quirino - A Capoeira, foi dividido em duas partes. Podemos considerar que na primeira parte o autor caracterizou o capoeira, definindo seu tipo, seus hábitos, seu jogo. Já na segunda parte, o autor fala dos capoeiras que lutaram na Guerra do Paraguai (1864-1870). Quem sabe, nessa parte, não tenha muito de sua experiência de vida, pois participou nela.

Começa, desta forma, construindo uma definição para a capoeira de seu tempo (virada do século XIX para o XX) com os seguintes elementos: O Angola; A Capoeira; e O Capoeira. O Angola seria um tipo de instrutor da capoeiragem, a raiz africana; A Capoeira seria um jogo atlético. Já a definição sobre O Capoeira mais longa, expõe esse tipo como um sujeito desconfiado e alerta, que interpreta como um ataque um gesto de cortesia se lançando longe de quem lhe fazia uma saudação, um cumprimento. Sujeito que sempre estaria envolvido em luta, principalmente em dia de festa santa, como o domingo de Ramos. Fala que existiam capoeiras profissionais e amadores, e que a capoeira não era restrita somente à pessoas das camadas mais desfavorecidas, sendo também praticada como um exercício por "pessoas de representação social".
Zuavos da Bahia
Um ponto interessante de sua narrativa está na motivação que encontraria a juventude da época para a pratica da capoeira, inspirada em historias de Carlos Magnos e os doze pares de França e pelas narrações guerreiras sobre a vida de Napoleão Bonaparte. Não deixando, no entanto, de mencionar uma certa mania de ser valente.
Por fim, descreve a brincadeira e transcreve uma música que seria cantada nas rodas daquela época.

Na segunda parte, Manuel Quirino fala sobre os capoeiras durante a Guerra do Paraguai. Chama a atenção para os capoeiras (zuavos baianos) que lutaram na campanha do forte do Curuzú; conta a história de dois capoeiras que serviram no exercito brasileiro durante o século XIX e se destacaram (e enfrentaram problemas)  por serem capoeiras: Cezário Álvaro da Costa e de Antônio Francisco de Melo. Vale a pena conhece-los.

O documento:














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