segunda-feira, 15 de junho de 2015

Folclore do Brasil - 1967 - Luís da Câmara Cascudo

Autor: Luís da Câmara Cascudo (1898 - 1986)


Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, em 30 de dezembro 1898 e faleceu na mesma cidade, em 30 de julho de 1986. Estudou medicina, mas se formou em direito. Aqui vamos conhece-lo como um importante folclorista. Publicou seu primeiro livro em 1921, Alma Patrícia, aos vinte e três anos de idade, um estudo crítico e biobibliográfico de 18 escritores e poetas norte-rio-grandenses ou radicados no Estado. Desde então não mais parou, escreveu cerca 150 livros. Como um filólogo, entendia como ninguém das expressões populares e compôs o Dicionário do Folclore Brasileiro (1954), o qual não se encontra semelhante no mundo. Cascudo entendia o folclore como a presença do milênio no contemporâneo, ou melhor, seriam práticas construídas coletivamente que não teriam tempo, não teriam história. Seriam experiências entendidas como antigas que riatualizamos, que damos novos significados. Nesse sentido, folclore abrigaria uma infinidade de atividades e práticas, como samba, cateretê, feijoada. Chegou a ser demitido por estudar figuras folclóricas como o lobisomem. 




A obra: Folclore do Brasil, Luís da Câmara Cascudo (1967)

 


Capítulo 7. Capoeira

Entre os aspectos explorados sobre folclore brasileiro, Luís da Câmara Cascudo não deixou de evidenciar uma forte influência dos povos africanos na composição do povo brasileiro, vindos forçadamente como escravos pra trabalhar nas terras da América portuguesa por mais de 300 anos. Entre as influências que contribuíram para formação de imagens do Brasil e dos brasileiros, ele não deixou de mencionar a capoeira. Indicou, por fim, que em sua obra Dicionário do Folclore Brasileiro reuniu sua “ciência capoeira”.

Em outro  trabalho (e aqui explorado nesta postagem) Folclore do Brasil de 1967, mais especificamente no capitulo 7, Luís da Câmara Cascudo menciona um capoeirista notório do inicio do século XX da cidade do Rio de Janeiro, e que segundo o autor, foi considerado na época um “herói nacional”. Ele se referia a Siríaco Francisco da Silva, que caiu no gosto popular pois havia vencido uma luta, organizada no Pavilhão Internacional, contra o japonês Sada Miako, lutador de jiu-jitsu. A capoeira, segundo o autor, já era conhecida dos brasileiros., mas o feito de Siriaco a teria consagrada. Vale lembrar aqui, que a marginalização da capoeira  existiu até a década de 1930, quando o Estado brasileiro sobre as mãos de Getúlio Vargas a retirou do código penal. No entanto, vale lembra ainda, que como outras manifestações afro-brasileiras, a capoeira continuou, quiçá continua, em nosso dias, marginalizada.

Levantada a lebre, Cascudo afirmou a existência de três centros tradicionais de capoeira: Rio de Janeiro, local onde grupos de capoeira Guaiamuns e Nagôs estiveram sempre uma grande rivalidade e constantemente entravam em confronto; na Bahia, local que os capoeiras estariam agrupados e identificados pelo seu bairro de origem (Sé, São Pedro, Santo Inácio e Saúde); e por último Recife, em que relacionou a capoeiragem de até 1865 com a disputa entre duas bandas de música, a do Quarto Batalhão de Artilharia e a do corpo da Guarda Nacional (maestrada pelo espanhol Pedro Garrido). Facções “irreconciliáveis”!, segundo o autor. O Quarto Batalhão chamava os integrantes do Corpo da Guarda (Espanhóis) injuriosamente de “cabeça sêca”. As bandas teriam desaparecido, quando os integrantes do 4º Batalhão foram a guerra do Paraguai e não mais voltaram, sobre a outra banda o autor não menciona como se deu seu fim.

No exercício da capoeira, segundo o autor, os jogos de exibição obedecem regras inquebráveis, sempre ao som do berimbau e se valem de golpes de perna, pé, calcanhar e cabeça, raramente se usam as mãos. O nome de alguns golpes se tornaram celebres como: rabo-de-arraia, chibata, armada, balão, bananeira. No entanto, quando a capoeira era usada em acertos de contas não se fazia o uso da musicalidade, podendo até terminar em morte, já que nesses casos era comum o uso de facas ou navalhas.

Lançando mão de seus referentes teóricos de folclorista, nosso autor afirmou que todos os elementos que davam forma a capoeira do inicio do século XX, aquela do notório Siríaco, tinham tomado de empréstimo “aspectos da antiguidade”, tendo como correlato a “valorização da agilidade disciplinada”.  Na procura de um passado para essa manifestação cultural, lembrou que todos os povos tem lutas antigas e que elas estão fundamentadas na luta clássica greco-romana em que se procura retirar o adversário do solo, mas que nenhuma lembraria o jogo da capoeira.

Procurou, dessa forma, as referencias próprias da capoeira: Indicou, através das fontes brasileiras, que a capoeira veio de Angola. Em Salvador foi chamada de Capoeira de Angola (vadiação ou brinquedo) , tendo como variação a angolinha, mais simples, porém não menos difícil. Do Rio de Janeiro ligou a capoeira a Pernada, com golpes de perna e pontapés como no Savage francês,, e atribuiu a essa arte a preferencia de negros, mas que também, ao final do Império ela atraia muitos rapazes ricos que acabavam com os bailes ou desafiavam autoridades. Isso só afamou mais aquela forma de luta. Veio com a fama a repressão a capoeiragem do Rio de Janeiro pelo Chefe de Polícia Sampaio Ferraz, e com a coerção aos capoeiras da alta sociedade um crise ministerial entre Campos Sales protetor do Chefe de polícia e Quintino Bocaiúva.


Ainda na procura de especificadas para a capoeira, apontou a falta de informações africanas sobre a capoeira do Brasil. Em África, segundo Cascudo, ela teria sido uma manifestação ritualística, aspecto que se perdeu no caminho para o Brasil. Por intermédio de um autor africano, Albano de Neves Souza, Câmara Cascudo afirmou que o correlato da capoeira brasileira, do lado de lá do atlântico foi o N’golo. Luta no qual o vencedor escolhia para si uma menina entre as que atingiram a puberdade sem precisar pagar o dote. Segundo nosso folclorista, o autor africano afirmou: “O N’golo é a Capoeira...” e que, os africanos vindo para a América portuguesa pelos portos de Benguela, interagiram com a luta com os pés chamada de Bassula, trouxeram-na e que esta teria se transformado de peleja tribal e cerimonial para algo que lhes ajudou a subsistir e a impor-se nas terras tropicais. Outro fator que, segundo o autor, pode atribuir o N’golo como origem da capoeira no Brasil era o uso de instrumentos, o Berimbau. Chegando ao Brasil, os negros como escravos que vieram do sul de Angola e passaram pelos portos de Benguela ampliaram a agressividade, incluindo facas e preferencialmente navalhas. Em Angola, o N’golo não usava nenhum tipo de arma, somente os pés e a cabeça. As armas de mão como o cacete e paus foram uma contribuição portuguesa, dos jogadores de pau, famosos no norte de Portugal.

A origem do nome capoeira, também foi uma preocupação de Câmara Cascudo que resumiu a questão lançando mão do Dr. A. J. Macedo Soares que escreveu em 1880: “ Temos ainda a palavra brasileira capoeira, significando o sujeito que se exercita na profissão de jogar o pau, a faca, a navalha, e faz profissão da capoeiragem. Os capoeiras são os turbulentos muito conhecidos nas grandes cidades, particularmente no Rio de Janeiro, faquistas, navalhistas, que ferem e matam por divertimento. Daí a definição de Frei Domingues Vieira. Ignoramos, porém, a origem e o fundamento do emprego da palavra. Talvez mesmo este lexicógrafo tivesse apanhada metade da verdade, pela analogia com os canhamboras, negros fugidos”. A definição de Frei Domingos Vieira, em seu dicionário de 1873 é: “Capoeira, Negro que vive no mato e acomete os passageiros a faca”.  Anterior a esses termos, no Brasil, capoeira seria a vegetação franzina, rareada que nasce despois de que a vegetação primitiva fora destruída. Câmara Cascudo, no entanto, não encontrou ligação do jogo atlético de vadios urbanos com a “capoeira” sinônimo do morador nas capoeiras.

Câmara Cascudo, nesta obra de 1967, encerra o verbete capoeira com as seguinte palavras: 

“A capoeira continua um popular exercício de agilidade na Bahia e Rio de Janeiro, prática realmente despojada do caráter agressivo de outrora. Sempre executada ao som dos berimbaus, urucungos ritmadores, monocórdios, a demonstração tem um aspecto ginastico, sugestivo pela precisai dos golpes, dando a imagem real de uma dana poderosa de força disciplinada e de elegância natural.
Esta na classe das demonstrações desportivas.
O capoeira desapareceu, mas a Capoeira ficou”.









Fiquem com a fonte original, e boa leitura:

























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